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Perigos Tecnológicos

O vício em tecnologia na infância, assim como outras dependências comportamentais, podem causar danos à saúde emocional e física da criança.

Sobre o artigo...

Entrevista

2011-12-01

André Carlos Correia, psicólogo e fundador da ONG Operação Hospalhaço

André Carlos Correia, psicólogo e fundador da ONG Operação Hospalhaço

Tablets, smartphones, nada parece o bastante quando se trata de tecnologia. Todos os dias somos ‘inundados’ por lançamentos de novas máquinas e mídias. Uma nova versão é lançada e, mesmo sem chegar às prateleiras, já existe uma mais moderna. Somos bombardeados todos os dias pela onda de consumismo de tecnologia, onde o que importa é sempre o último upgrade.

O combustível deste mercado é a informação. As máquinas avançadas servem para nos deixar sempre conectados e receber informações variadas em alta velocidade. A notícia do segundo que passou já é obsoleta, o que importa é o futuro. Deste modo, o mundo virtual atrai cada vez mais pessoas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística (IBGE), de 2005 a 2008 o acesso à internet no Brasil Cresceu 75%. Uma pesquisa realizada pelo IBOPE aponta que mais 70 milhões de brasileiros estão conectados a rede mundial de computadores.

As crianças, desde o berço são inseridas nesta revolução tecnológica, já estão habituadas às inovações antes mesmo de começar a falar. Cada vez mais, os apelos tecnológicos seduzem crianças, que por sua vez estão mais ávidas por novas tecnologias, fazendo essa imersão no mundo virtual. Essa espécie de obsessão pode se tornar algo nocivo quando detectada nos mais jovens.

Em entrevista à Revista Parabéns, o psicólogo André Carlos Correia explica o limite entre gostar de tecnologia e a compulsão pela mesma, tornando-se uma dependência comportamental. Formado pela UMESP em 2007, o psicólogo já atuou em projetos sociais de São Bernardo do Campo e Diadema, atendendo pessoas de baixa renda e crianças em situação de risco. Ele também é fundador e artista da ONG Operação Hospalhaço.

Revista Parabéns – Existe algum estudo ou um nome específico para o vício em tecnologia?
Correia – Sim. Existem alguns trabalhos recentes que já estudam essa dependência. Muitos ainda não são conclusivos, por ser uma condição muito nova. Não existe nome especifico. São vulgarmente chamados de ciberadictos ou ciberviciados. Já que o vício da internet e tecnologia estão muito relacionados.

Revista Parabéns – Existem estimativas de quantas crianças podem estar afetadas por essa obsessão por tecnologia?
Correia – Os trabalhos ainda sãoinconclusivos para uma afirmação muito categórica. Mesmo assim existe um número que afirma que quatro a cada cinco jovens sentem algum desconforto quando afastado de referências tecnológicas.

Revista Parabéns – Quando os pais podem notar que seu filho está viciado em equipamentos tecnológicos?
Correia – Atualmente a maioria das brincadeiras dos jovens é relacionada à tecnologia, computadores e videogames conectados na internet, entre outros. Os pais devem observar não só o tempo desprendido com tecnologia, mas também mudanças de humor e comportamento quando a criança ou jovem estão distantes desses objetos. Vale ressaltar que ao retirar as alternativas tecnológicas,os pais devem estar preparados para suprir essa carência com outras atividades.

Revista Parabéns – O uso excessivo de tecnologia entre crianças já é uma espécie de epidemia?
Correia – Epidemia não, mas sim a consequência de uma situação sociocultural. Por consequência da falta de segurança, superproteção e pelo fácil acesso a tecnologia, os jovens estão migrando de atividades, deixando de lado as brincadeiras mais arcaicas e aderindo às facilidades da tecnologia.

Revista Parabéns – O senhor acredita que a grande exposição à tecnologia pode queimar etapas no amadurecimento da criança e o adolescente?
Correia – Queimar etapas está somente relacionado a casos mais extremos, como abuso da tecnologia, consequência da permissividade dos pais. Uma criança não será superexposta se houver o controle dos pais sobre a situação.

Revista Parabéns – Quais os prejuízos que um vício deste pode trazer às crianças, tanto na infância quanto para as outras fases da vida? Que tipo de adulto uma criança viciada em tecnologia pode se tornar?
Correia – Como não só o fator tecnologia influencia o desenvolvimento de uma pessoa, é difícil determinar qual tipo de adulto poderia se tornar. Deve-se atentar a família, ambiente social em que se está envolvido, oportunidades e alternativas que existem para esses jovens. Uma pessoa viciada em tecnologia e bem amparada construiu um império chamado Apple, enquanto um jovem de 28 anos morreu de ataque cardíaco após 50 horas de jogos em uma Lan House.

Revista Parabéns – O senhor acredita que a infância atual sofre mais influencia dos meios eletrônicos, interferindo na sua formação emocional?
Correia – Se sofre mais influencia, não é possível afirmar, pois como dito anteriormente, existem outros fatores que determinam a formação de uma pessoa. Porém, os estímulos eletrônicos estão muito mais presentes do que anteriormente. Isso causa uma exposição maior e acesso precoce de alguns conteúdos.

Revista Parabéns – Como os pais podem ‘blindar’ seus filhos para evitar o uso compulsivo de tecnologia?
Correia – Os pais devem estar presentes, acompanhar o desenvolvimento e certificar que existem alternativas interessantes para competir com a tecnologia. Isso não é blindar, mas regrar, educar e viabilizar outras atividades.

Revista Parabéns – Quando uma criança já está ‘viciada’ em tecnologia, se consegue reverter o quadro?
Correia – Sim. Com apoio profissional e empenho dos pais, é possível reverter a dependência.

Revista Parabéns – No decorrer do século passado, os avanços tecnológicos sempre existiram. O Senhor acha que este tipo de obsessão émais da atualidade ou sempre existiu? Se sim, por que se acentuou mais nos dias de hoje?
Correia – Sempre existiu, porém em âmbitos diferentes. O que difere de décadas passadas é a acessibilidade que a população tem às tecnologias.

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